sábado, 11 de janeiro de 2014

Capítulo I

        Então o último homem da Terra se sentou sozinho em um quarto, e ouviu-se uma batida na porta. Não era possível que ele não fosse mesmo o último homem da Terra e um animal não seria capaz de fazer um barulho de batida como aquele. Ele a abriu. Vazio. E ele parou para pensar que o silêncio absoluto no mundo era horrivelmente pior quando comparado à possibilidade de existir outro ser inteligente ainda vivo no planeta, mesmo que  esse ser não fosse um ser humano e ainda fosse hostil e estivesse pronto para aniquiliar o último homem da Terra e, assim, a vida humana na Terra. E como ele queria que tivesse sido assim, que houvesse alguém para matá-lo e acabar com seu sofrimento solitário de ser a última pessoa em uma vastidão de países e continentes, mas não. Era uma silêncio ensurdecedor, como se todas as almas das bilhões de pessoas que haviam deixado essa vida gritassem silenciosamente em suas orelhas e isso o estava deixando louco. Teve que dar uma volta.
       
        As ruas eram bem piores. Carros abandonados por todos os lados em uma perfeição absurda, como se fosse um dia normal de três meses atrás; suas portas estavam fechadas e os carros parados em perfeito movimento, um atrás do outro, como se estivessem em um congestionamento, e o mais impressionante porém mais perturbador: não havia corpos, não havia barulho e nem mesmo aquela sensação de que alguém está observando. O semáforo estava mudando suas cores como fazia todo dia, todos os outdoors dos monstruosos arranha-céus ainda passavam a propaganda da Coca-Cola, até mesmo os celulares que ficam a mostra nas lojas da Apple estavam ligados e apresentavam sinais de operadora. O último homem da Terra tentou ligar para sua família e para amigos usando um dos Iphone 5s recém lançados que encontrou na vitrine de uma dessas lojas e... nada. O toque de chamar acontecia quatro vezes e em seguida se silenciava, embora o telefone continuasse fazendo a ligação, como se alguém atendesse e nada falasse.
       
        O último homem da Terra olhou no calendário do celular e constatou o que não poderia ser verdade:  17 de julho. Havia dormido por 13 dias e a última coisa da qual se lembra era do estranho e misterioso faxineiro do escritório aonde trabalhava o ter sequestrado, o levado para seu pequeno e pobre apartamento e o forçado a tomar algo estranho, tinha gosto de chá-mate mas era gaseificado, muito mais do que as águas com gás normalmente encontradas em mercados e lojas de conveniência e, no meio do seu sono que pareceu ter durado alguns minutos apenas, ele se sentia incrivemente sozinho, sentia como se nem mesmo no seu sonho as pessoas existissem mais. Mas não podia ter verdade, afinal, todo já sonharam com algo assustador e pouco depois acordaram para o próprio alívio... ou podia? Estaria tudo isso realmente acontecendo? Acessou os sites de notícia usando  3G do celular, uma vez que as operadoras ainda “trabalhavam” e as notícias também tinha parado no dia 5 de julho, dia seguinte ao começo do seu “coma”, e não havia notícias sobre o fim da humanidade, o desaparecimento de todos os corpos da superfície do planeta Terra ou nada que pudesse lhe dar alguma dica do que estava acontecendo. O último homem da Terra ainda estaria sonhando? Seu cérebro estaria lhe pregando alguma peça quando ouviu o bater na porta? Estaria ele ficando louco com a falta de barulho que não estava acostumado?
       
        Então o último homem da Terra voltou e se sentou sozinho no quarto. Olhando fixamente e sem foco a escrivaninha do lugar, notou um papel com um número de celular anotado. Pegou o Iphone que ainda estava no seu bolso e ligou. Depois das mesmas quatro chamadas, o mesmo silêncio tomou lugar dos toques mas, quando ia desligar, ouviu uma batida em uma porta pelo telefone, imediatamente entrou em desespero. Desligou o celular e ouviu passos de alguém subindo a escada, em passos uníssonos e idênticos, passos que pareciam gravados por qualquer tipo de gravador e depois terem sidos colocados para tocar em algum rádio, mas ele sabia que não era isso, os passos estavam cada vez mais perto. Pegou o lençol da cama em que acordara e rapidamente consultou pela 3G do celular como fazer uma “corda” com o lençol para se enforcar, e conforme o tempo ia passando, os passos iam passando tambem e chegando mais perto. Quanto mais passos, mais perto. Subiu na cadeira em que se sentara quando acordou, ficou de pé nela e colocou a cabeça no laço que havia com o lençol e o último homem da Terra empurrou a cadeira com o pés. Ouviu-se uma batida na porta. A batida ia se agravando, ia ficando mais forte, mais agressiva e o último homem da Terra estava com mais medo dela do que de morrer. Sua visão foi escurecendo, o mundo foi perdendo a cor e sua consciência estava deixando seu corpo, seus sentidos não sentiam mais nada, finalmente estava deixando de ser o último homem na Terra para se tornar um dos vários bilhões de homens que habitavam, agora, seja lá onde fosse. De repente, ouviu-se um rasgo e uma batida seca no chão. Suas costas doíam, ele estava fraco demais para se mexer mas seus sentidos já haviam retornado.
       
        Ouviu-se o abrir da porta.

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