quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Capítulo IV

     

        Medo foi a única coisa que ele sentiu naquele momento, um GRANDE medo, e esse sentimento era novo pra ele, era uma novidade cuja qual ele não gostaria de ter conhecido pois sabia que sua vida iria acabar antes mesmo que pudesse abrir os olhos. Quando criou coragem para abrí-los alguns milésimos depois, a cadeira da escrivaninha voou sobre um Bonum e o armário velho e rangento encostado na parade caiu sobre o outro, o que os deixou atordoados a ponto de terem que se apoiar nas espadas para não cair. Nesse mesmo instante, a porta do quarto se abriu com um forte baque e pôde-se ler gravada nela como se unhas tivessem riscado a madeira: “CORRA”.
       
        Nathan despertou de seu choque e saiu em disparada, sem olhar pra trás. Podia ouvir os pesados passos dos Bonum o perseguindo escada abaixo com suas armaduras maravilhosas e pesadíssimas, feitas com algum tipo de metal que a Terra ainda não havia conhecido, e ficava horrorizado cada vez que notava que as pancadas das pisadas estavam cada vez mais altas e próximas.
       
        - Não dá pra me deixar sem sentimentos outra vez?! – ele gritava na tentativa de falar com o Mal, ofegante e cansado.
       
        Chegou ao primeiro andar do prédio e continuou descendo até que estivesse na rua e quando chegou lá não sabia o que era pior, se era o silêncio formado pela completa extinção da raça humana ou os dois titãs que ainda o estavam perseguindo. Quando já estava quase no outro quarteirão, tropeçou em uma pedra e caiu no chão e pouco tempo teve para uma reação ao ver que os Bonum já tinham lhe alcançado. Era incrível o tamanho e a força que eles tinham, sua fisionomia, suas curvas, suas formas. Mesmo com um imenso horror correndo dentro do seu corpo, Nathan tinha que admitir que eram as mais belas criaturas que já havia visto e só ele teve essa oportunidade no mundo todo, o que o deixou feliz por um leve instante.
       
        De repente, dois seres idênticos aos Bonum surgiram, mas esses eram escuros como sombras e não possuíam detalhes ou armadura algum: só era possível ver a silhueta das criaturas e das espadas. Notou a surpresa e o espanto no rosto dos originais e não demorou até que se elevassem aos céus e começassem uma batalha que Nathan nunca tinha visto nem nunca esperava ver, todo seu medo se tornou exaltação e era simplesmente fantástico o modo como as espadas se cruzavam no alto e faziam um som de explosão toda vez que se chocavam. O primeiro guerreiro a desabar com um Bonum depois de ser atingido por um golpe de espada nas costas, que o fez perder o movimento das asas. Eles estavam muito alto no céu e a queda que parecia ter uns 30 ou 40 metros havia feito o serviço de lhe tirar a vida. O Bonum que sobrou rapidamente eliminou sua sombra com um golpe na cabeça, que a fez virar uma fumaça escura e desaparecer no ar. A luta entre os dois últimos demorou um pouco, mas a sombra conseguiu acertar o tórax do Bonum, o que fez sua armadura quebrar e seu peito aparecer, mas não o matou; apenas o golpeou no peito de modo que ficava sem forças para continuar lutando e antes ele também pudesse despencar, sua sombra o agarrou com o pés, que eram como de um pássaro e o levou lentamente até o chão, na frente de Nathan e soltou ele; pode tocar sua armadura e percebeu com ela era quente, um quente quase fervente. A sombra fez um sinal para que Nathan tocasse no sangue que escorria no peito ainda pulsante e com uma respiração fraca do Bonum e depois colocasse um pouco desse sangue na boca. Nathan hesitou de começo mas acabou fazendo e não se arrependeu disso: sentiu uma enorme energia dentro de si, percorrendo todas as suas veias e artérias e lhe dando um bem-estar incrível. Pensou que se as outras pessoas ainda estivessem na Terra e soubessem disso, aquele sangue com certeza seria uma droga caríssima. Após esse efeito passar, a sombra do Bonum tirou o resto de vida que o Soldado do Bem ainda tinha, pegou sua espada e a entregou ao último homem da Terra. Nathan deu risada e argumentou que não conseguiria segurá-la nem mesmo com suas duas mãos e seus dois pés, mas a sombra continuava com a espada estendida para ele e, quando resolveu aceitar o presente, percebeu que não era ou não parecia ser mais pesada que um cabo de vassoura ou aqueles pedaços de pau que usava para brigar com os meninos da sua vizinhança quando era adolescente. Maravilhado com o que tinha acabado de ganhar, foi agradecer a sombra e o que viu foi ela se tornando fumaça e se desfazendo no ar também.
       
        - Espere, preciso de explicações! O que aconteceu? Por que eu bebi o sangue dele, por que eu carrego essa espada como um pedaço de papel, quem eram vocês, para aonde eu vou agora?!
       
        Não adiantou, estava sozinho de novo e era, novamente, o último homem da Terra. Pensou em todas as formas possíveis de falar com o Mal e se lembrou daquele número de celular que encontrara na escrivaninha do quarto do seu faxineiro. Procurou o telefone público mais próximo e encontrou um em um posto de gasolina não muito longe de onde estava, colocou algumas moedas e discou para o número que estava no papel apenas para ver a porta da loja de conveniência se abrir. Se dirigiu para dentro dela já sabendo o que iria encontrar e, ao entrar e dar uma rápida olhada no local, se enxergou em uma mesa ao fundo, tomando café e fumando um cigarro com uma expressão séria.
       
        - Quero explicações, o que é que acabou de acontecer?! – exclamou Nathan, com uma mistura de raiva, medo e felicidade por estar seguro percorrendo seu corpo.
       
        - Sente-se, Nathan. As coisas serão piores do que eu imaginava e temos que ter todo o cuidado do mundo. - Mal disse com uma tranquilidade sobrehuma, mas sobrehumano também era o medo e o desespero que Nathan pôde perceber nele.



Nenhum comentário:

Postar um comentário