quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Capítulo VI

        

        Na verdade, Nathan estava confuso e desnorteado, não sabia por onde começar. Andou alguns quarteirões até encontrar um bairro residencial de classe média alta e poder escolher uma casa para descansar, pôr a cabeça a lugar e tentar algo com seus novos poderes. Acabou por escolher uma casa que ele sabia ser de um de seus colegas de trabalho, já havia feito muitas reuniões e confraternizações alí, conhecia bem os corredores e quartos e achou isso uma vantagem caso alguma invasão de Bonum ou qualquer outra coisa pudesse lhe atormentar; era uma residência espaçosa e seu amigo havia morado lá com a esposa e filha, tinha três quartos (um era o de hóspedes), três banheiros, garagem e um espaço com piscina no fundo, que ele achou específico para testar suas habilidades. Acabou por descobrir um sótão que até então era inexistente pra ele e decidiu que dormiria por lá.
       
        “Parece mais seguro que os outros cômodos... o que são ratos, baratas e aranha quando se tem um exército de anjos me perseguindo?” – pensou.
       
        Após arrumar tudo – pegar o colchão de hóspedes e colocar no seu “quarto” – e tomar um banho, vestiu algumas roupa de seu ex-colega e desceu até a cozinha para procurar e comer alguma coisa. Felizmente, tudo estava lá e pouca coisa tinha passado do prazo de validade; finalmente estava tranquilo e, aparentemente, fora de perigo. Sentiu uma leve brisa tocar seu rosto e, antes de preparar qualquer comida, deu uma checada se toda janela e porta estavam fechadas. Se deu ao luxo de fazer um macarrão ao sugo e tomar quase uma garrafa inteira de vinho, o que lhe rendeu um belo tombo ao tentar levantar da mesa e, com isso, uma bela ralada no joelho. Ao se apoiar no chão para levantar, teve a impressão que o havia amassado.
       
        - Devo ter bebido um pouco demais, acho melhor eu me deitar e logo pela manhã ver do que o novo Nathan é capaz, o novo, poderoso e sobrenatural Nathan! – Ele estava se sentindo zonzo, claramente por conta da bebida.
       
        Subiu até o sotão com grande dificuldade em acertar os degraus da escada e se jogou no colchão. Antes de fechar os olhos, se levantou e acendeu a luz, que era fraca, mas seria útil poder enxergar caso algo acontecesse na casa. Se deitou outra vez e notou um pequeno baú no canto , bem no canto, embaixo de alguns edredons velhos e bichos de pelúcia. Foi até lá, tirou tudo de cima e o abriu: havia dezenas de fotos do Joe, seu amigo, jutamente com sua famíla, colegas de trabalho e todo tipo de pessoa – amigos, pai, mãe, fotos do colegial... Nathan via tudo aquilo e chorava, não sabia se por tristeza, por saudade, por não saber o que fazer ou por não saber se era capaz de salvar sete bilhões de pessoas de algo que ninguém nem ao menos sabia existir. Tudo que ele estava sentindo era diferente, tendo em vista que nunca havia sentido nada daquilo em toda sua vida e só tinha conhecimento do que era “sentir” havia um dia, pois já era madrugada do dia 18. “Parece que já passei por tanta coisa, já quase morri e só se passou um dia desde que esse inferno começou”, foi um pensamento rápido que veio à sua cabeça. Ainda estava vendo as fotos quando encontrou uma que não lhe agradou nem um pouco. Uma foto de Joe segurando a ex-namorada de Nathan no colo estava em suas mãos e ele começou a se sentir diferente, começou a se sentir... maldoso. Ele se lembra do dia em que aquela foto havia sido tirada, foi em uma virada do ano e sabia que não não houve más intenções da parte de Joe, ele já era casado e sua filha tinha acabado de nascer, mas começou a se sentir de um maneira que nunca tinha visto – ou melhor, não teria nem como ter sentido. Sentia raiva.
       
        Concentrando toda sua raiva no amigo e no modo que ele segurava Jennifer – sua ex – a foto começou a criar chamas em suas laterais e ir em direção ao centro, no rosto de Joe. Quando percebeu o que estava acontecendo, Nathan se assustou e deu um pulo para trás, a foto caiu em cima dos edredons e tudo começou a se incendiar. Os panos, as bonecas e a parede de madeira do sótão. Não haviam grandes chamas e nem nada, mas podia piorar. Nathan correu pegar um galão que estava no outro canto, derramou um pouco do líquido em suas mãos pelo fato de estar bêbado e começou a despejar sobre o incêndio. Para sua infelicidade, era gasolina e o fogo havia percorrido o caminho que ele fizera entre o galão e as chamas, fazendo com que sua mãos também se incendiasse.
       
        - Aaaaah, socorro! Alguém me ajude, alguém! – ele sentia suas mãos queimarem e pedia por ajuda mesmo sabendo que ninguém iria socorrê-lo. – Alguéeeem!
       
        Sentindo um grande medo, de modo que nunca havia sentido antes, as chamas em suas mãos congelaram e caíram no chão como duas grandes luvas. Com as mãos ainda queimadas e ardendo, desceu até a cozinha, encheu uma grande bacia d’água e começou a jogar sobre o fogo que havia se alastrado no sótão, apagando tudo. Nathan se sentou no colchão – que estava ileso no centro do cômodo – e começou a pensar no que havia acontecido. Pegou as chamas congeladas e olhou dentro do gelo: o fogo estava imóvel e não dançava mais. Olhou no vão das pedras, na “entrada” das luvas e lá dentro haviam perfeitos moldes de suas mãos.
       
        Tudo isso era muito louco, muito estranho e, principalmente, muito novo. Nathan não achava que qualquer pessoa do planeta, quando viva, podia fazer aquilo. Apesar das mãos machucadas, seu medo e raiva passaram e ele começou a se sentir feliz, uma felicidade tremenda por ter sentimentos, ter recebido a grandiosa missão de salvar a humanidade e por ter poderes, apesar de ainda não saber como dominá-los e nem ao menos como usá-los. Para sua surpresa, suas mãos queimadas e joelho ralado ficaram envoltos em luzes verdes que irradiavam paz, irradiavam uma sensação de segurança. Quando as luzes se apagaram alguns segundos depois, ele estava curado – mãos e joelho. Já havia passado por muita coisa e não queria ao menos pensar em tudo ocorrera aquela noite, só queria deitar e descansar, o álcool do vinho estava pesando em seu olhos. Se deitou, puxou a coberta e fechou o olhos.
       
        - PUTA QUE PARIU! – Nathan deu um grito recheado de esperança que percorreu todo o bairro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário