segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Capítulo II

       

        O silêncio entrou no quarto junto com uma rajada de medo e se pode ver ao fundo do corredor o que parecia outra porta. "Ela não estava alí", capturou esse pensamento, entre os vários que circulavam sua cabeça. Andou em direção a ela, cada passo parecendo o último da sua vida, o último da humanidade e, ao abrí-la, estava de volta ao quarto, mas com algo na sua frente que era de arrepiar até os micro-pêlos da palma da sua mão: estava frente a frente com ele mesmo. Não havia espelho, não havia vidro, não havia uma superfícia lisa de metal na qual ele pudesse estar vendo seu reflexo, não, era uma imagem de carne e osso, pelo menos achava ele, do seu próprio corpo. A imagem dava risada ao ver o último homem da Terra com seu rosto espantado.
     
        - Calma, Nathan! – ele disse ainda rindo - você está vendo exatamente o que está vendo, mas não há com o quê se preocupar.
     
        Sim, ele se chamava Nathan. Não era e não será necessário saber o nome do nosso bravo sobrevivente, mas chamaremos ele pelo nome porque é mil vezes mais fácil contar a história desse jeito.
     
        - Calma?! Eu estou me vendo, eu estou conversando comigo mesmo, eu, eu... eu estou ficando louco! – Ele pegou o lençol recém rasgado pela sua tentativa de enforcamento e começou a tentar arrumá-lo, mas desistiu em seguida.
     
        - Você não está louco, você não está falando com você... eu sou o Mal, e essa é a única forma que eu posso me comunicar com você, uma vez que não existo fisicamente e você é o último corpo ainda existente no qual posso me espelhar. A única coisa que posso fazer na forma não-física é mexer e criar objetos, e isso inclui rasgar lençóis... e tomar o corpo de outras pessoas também, mas isso não tem nada a ver com toda a baboseira que os filmes de exorcismo nos mostra.
     
        O horror no rosto do verdadeiro Nathan era facilmente notável, ele não conseguia esconder seu medo e pavor. Antes que pudesse vir a sua mente a ideia de responder ou questionar tudo o que seu clone disse, ele só teve coragem de perguntar, ainda em uma vóz trêmula:
     
        - Você é o... Mal? Que tipo de Mal é você, você é o Diabo? – percebendo a superioridade em tudo que seu clone possuía, procurou escolher as melhores palavras possíveis para não ofendê-lo.
     
        - Não, eu não sou o Diabo, eu não sou o demônio e não sou algo que vá te machucar fisicamente, não tenho nem motivos pra fazer isso. Eu sou aquilo que faz as pessoas sentirem medo, que faz elas sentirem tristeza, raiva e todos os tipos de sentimento negativo que os seres humanos têm conhecimento; isso nunca foi obra do seu cérebro e nunca vai ser... do mesmo modo que o Bem faz todas as pessoas do mundo sentirem amor, felicidade, prazer, realização, alegria. Não existe Deus e Diabo, isso é apenas uma ideologia que uma das várias fragmentações, conhecidas por vocês como religiões, criou pra nos designar.
     
        Tudo isso era demais para Nathan. Ele estava frente a frente com o Diabo, ou o Mal, ou seja lá quem fosse ele. Sempre foi uma pessoa religiosa e agora a própria coisa pela qual ele sempre rezou e lutou contra estava dizendo que não queria machucá-lo e que tudo que sempre ouviu nas missas e acreditou era apenas uma fragmentação de algo muito maior. Não só o que ele acreditou, todos os cristãos do mundo. A única coisa que pôde pensar era em como queria não ser o último homem da Terra e poder voltar a trabalhar na parte de contabilidade de sua empresa.
     
        - Preciso de um segundo pra por tudo no lugar, tem muita coisa na minha cabeça e eu...
     
        - Não há tempo, Nathan. Nos encontraremos novamente no futuro, mas até lá preciso que você entenda uma coisa muito difícil de ser acreditada e até mesmo entendida: o Bem é um ser como eu, onipresente, criado junto com a criação do Universo para tomar conta deste planeta e dos sentimentos de seus habitantes, e desde essa época remota existe alguém criado para não sentir bons sentimentos e alguém criado para não sentir maus sentimentos, o que é passado de geração em geração pela família dos Escolhidos, mas o Bem planeja algo muito, muito horrível. Não há tempo para explicações e já gostaria de me desculpar por não tirar todo esse sentimento terrível de dentro de você, Nathan... de solidão, de tristeza, de medo. Eu não infiltro isso nas pessoas por gosto, mas por obrigação, é algo automático.
     
        - Mas nunca senti tanto medo assim, eu não estou só com medo, estou aterrorizado! – ele exclamou, já gritando após perceber que o Mal não lhe faria mal – eu sempre fui alguém muito forte em relação aos sentimentos ruins, sempre segurei a barra, nunca me senti como me sinto hoje, não sei dizer... sozinho.
     
        - Você sente medo agora porque, como não há mais ninguém para eu ter que dividir meu poder, todo ele é focado em você e apesar disso ser um perigo, não havia outra saída.
     
        Nathan se perguntava sobre o que o Mal havia acabado de dizer, pois não havia entendido nada, e perguntou algo que não parecia óbvio:
     
        - E por que não me possuiu para me salvar e ser a última esperança da Terra?
     
        E a resposta o deixou mais assustado, mais assustado do que já estivera um dia, mais assustado do que parecia ser possível.
     
        - Você é a maior arma que o Bem pode usar contra mim, você é o único que pode salvar a Terra ou destruí-la. Eu não podia te possuir, eu não conseguia te possuir e nunca consegui fazer você sentir coisas ruins até hoje, uma vez que minha energia era dividida em sete bilhões de pessoas. Você é o Escolhido do Bem por herança e não havia modos de ao menos chegar perto de você do jeito que estou fazendo agora.

6 comentários:

  1. Adoorei!! Quero a continuação hein! :)

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  2. muuito bom! tem q fazer continuaçao :D

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  3. Muuuuuuito obrigado! Eu vou fazendo conforme der, o difícil é ter ideias... ahuahuahaua compartilhem com suas amigas e amigas, eu ficaria muito grato!

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  4. Por favor, continua! Tá muito foda!

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  5. Hey, comecei a ler agora, e devo dizer:
    admito que sou uma preguiçosa pra ler, mas sua escrita é irresistível demais! Parabéns, muito bom.
    Leve o tempo que quiser para escrever novos capítulos, mas claro que irei estar aqui esperando~ ksksks

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  6. CARACA, finalmente achei o site de novo!
    Eu lembro que no inicio do ano eu tinha lido todos os capítulos e ficava ansioso pra chegar um novo, ai esqueci completamente e agora finalmente achei!
    Mal posso esperar pra ler tudo de novo!

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