domingo, 31 de agosto de 2014

Capítulo VII



        Nathan não conseguiu dormir depois de tudo aquilo, ficou horas pensando em quais outros poderes ele teria e como ativou todos aqueles que já sabia ter. Não conseguiu chegar em nenhuma conclusão e nem conseguiu usá-los de novo, coisa que o deixou um pouco frustrado e na obrigação de ver Mal o mais rápido possível para pedir explicações, se é que ele poderia ter alguma. Ao amanhecer, Nathan pegou uma mochila que estava no quarta do seu antigo colega e a encheu com algumas garrafas d’água e pacotes de bolacha para então sair na rua e decidir o que faria em seguida; ela estava do mesmo jeito: vazia, silenciosa e ao mesmo tempo barulhenta, fazendo um barulho que não se pode ouvir mas que incomodava tanto quanto várias buzinas de carro ao mesmo tempo, e ele ainda não havia se acostumado com isso. Pensou que suas roupas estavam muito sujas e foi em direção ao centro da cidade para encontrar alguma loja e pegar umas roupas novas. Era incrível como tudo na cidade havia ficado na mais perfeita disposição, como se os motoristas dos carros tivessem sido levados sem as portas serem abertas e ainda estivessem pilotando; em uma rua de um cruzamento, havia um congestionamento de uns 8 ou 9 carros, enquanto na outra os carros estavam começando a se mover, como se o semáforo acabesse de dar sinal verde. Tudo era uma grande vida morta.
      
        Várias lojas estavam abertas quando Nathan chegou ao centro da cidade: lojas de brinquedo, lojas de departamento, bares, lanchonetes... “é o cenário perfeito para um ladrão de terceira categoria, tudo está aberto e pronto para ser roubado... mas eu só vim pegar umas roupas novas”, pensou ele. Foi logo em direção à loja que mais gostava na cidade, uma loja de materias esportivos.
       
        - Vou me vestir em roupas leves, assim pode ser que eu consiga escapar mais facilmente do que quer que seja e canse menos por carregar menos peso.
        
        Pegou duas camisas leves, daquelas básicas produzidas por marcas esportivas, duas bermudas do mesmo estilo e algumas cuecas e meias. Estava procurando por um telefone dentro da loja para ligar pra Mal quando ouviu um barulho, parecia um apito de baixo frequência, daqueles usados com cachorros; o problema era que o apito parecia estar em todos os cantos da loja. Olhou ao redor, olhou no estoque, embaixo de cada estante e não encontrou nada. Quando estava para sair da loja, a dois passos da porta, um Bonum caiu como um meteoro bem na sua frente – aquela criatura maravilhosa, adornada com ouro e, ao mesmo tempo, horrível e que despertava um grande terror em Nathan. Antes mesmo de ter a chance de pensar em algo, o Bonum tirou sua grande espada das costas e tentou acertar Nathan com um golpe na horizontal, que conseguiu se abaixar a tempo. Rolou para dentro da loja ainda deitado, deixou a mochilha em um canto atrás do balcão e procurou coragem para levantar e encarar a criatura que tanto lhe aterrorizava. Ainda estava escondido quando a grande espada desceu em um golpe na vertical e quase arrancou sua orelha fora, quebrando o balcão de madeira no meio. Levantou e saiu correndo para fora da loja, aonde teria mais espaço para enfrentar o Bonum. Olhou para trás enquanto corria e mais uma vez se espantou com a velocidade e leveza com a qual aquela espada era manuseada levanto em conta seu tamanho e peso. Não demorou muito até que Nathan fosse alcançado e levasse um soco nas costas, que o arremessou quinze metros para frente, dentro de uma lanchonete e fez ele se chocar contra uma mesa de plástico. Nathan sentia toda a dor nas suas costas e notou alguns cortes na sua perna, causados pela mesa quebrada, mas não havia nada que o impossibilitasse de voltar para a luta. “Acho que descobri outro poder”, passou por sua cabeça. Se colocou de pé e focou o Bonum com o olhar, aquele enorme ser caminhando em sua direção. Sentiu uma grande raiva percorrendo seu corpo e suas mãos se incendiaram do mesmo modo que uma folha de papel encharcada com álcool, mas dessa vez não teve medo e simplesmente deixou a raiva fluir. Concentrou toda ela para as suas mãos somente para ver o fogo aumentando e, correndo em direção ao inimigo, saltou pouco antes de alcançá-lo e o golpeou com um soco no peito. Sua armadura trincou e o obrigou a recuar alguns passos antes que Nathan pudesse lhe arremessar duas bolas de fogo que o atingiram no braço direito, fazendo com que o Bonum soltasse a espada no chão. Correu novamente em direção a ele com as mãos fechadas em um martelo para de golpeá-lo na cabeça quando o Bonum, de maneira MUITO rápida, desviou das mãos ardentes de Nathan, segurou seu pescoço com a mão esquerda e começou a asfixiá-lo. O fogo de suas mãos sumiram em uma tentativa desesperada de se livre daquela mão que tinha duas vezes o tamanho da sua; um medo começou a percorrer seu corpo, medo de morrer, medo da humanidade inteira se perder com a sua morte. Sua visão foi escurecendo e o ar dificilmente entrava em seus pulmões quando, de repente, suas mãos começaram a ficar geladas e adormecidas, ele olhou para ela e viu uma leve fumaça, um gás quase invisível que saía delas. Enquanto o Bonum se abaixava para pegar a espada do chão, Nathan colocou suas mãos na cabeça da criatura e começou a apertar com a pouca força que lhe restava para vê-la congelar desde o topo até o pescoço, fazendo com que o Bonum o soltasse e ele caísse no chão. Não pensou duas vezes: pegou a grande e bela espada que estava ao seu lado e, girando os braços com a maior força e raiva que conseguiu reunir, a espada começou a pegar fogo e golpeou-o com um ataque na horizontal, decepando o inimigo. Sua cabeça caiu rolando no chão e, após sangrar por alguns segundos, a espada, corpo de cabeça do Bonum irradiaram uma luz ofuscante antes de virarem um pó dourado e desaparecerem no ar. Nathan se acalmou, sentou no chão e o fogo de suas mãos novamente se apagou. “Ainda não entendo esses poderes, não mesmo...”, disse para si mesmo enquanto estava sentado no meio da rua.

        Após se recuperar da recente batalha, achou um telefone público não muito longe de onde estava e ligou para o número do Mal. O telefone chamou uma, duas, três vezes e ele notou a porta de um bar que estava fechado se abrindo. Foi até lá e, ao entrar, viu seu “clone” novamente sentado no balcão, tomando um xícara de café e fumando um cigarro.
        - Preciso de ajuda, não sei o que está acontecendo comigo... não sei o que são esses poderes, como eu consigo ativá-los, como... – Nathan foi interrompido pelo Mal.

        - Eu também não sabia até você conseguir dominá-los, Nathan, – disse Mal, apontando o banquinho ao seu lado – sente-se, tome um café e prepare-se para ouvir tudo o que precisa: como dominar seus poderes, como eles funcionam e porque eu não enviei as Sombras para te salvar dessa vez.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Capítulo VI

        

        Na verdade, Nathan estava confuso e desnorteado, não sabia por onde começar. Andou alguns quarteirões até encontrar um bairro residencial de classe média alta e poder escolher uma casa para descansar, pôr a cabeça a lugar e tentar algo com seus novos poderes. Acabou por escolher uma casa que ele sabia ser de um de seus colegas de trabalho, já havia feito muitas reuniões e confraternizações alí, conhecia bem os corredores e quartos e achou isso uma vantagem caso alguma invasão de Bonum ou qualquer outra coisa pudesse lhe atormentar; era uma residência espaçosa e seu amigo havia morado lá com a esposa e filha, tinha três quartos (um era o de hóspedes), três banheiros, garagem e um espaço com piscina no fundo, que ele achou específico para testar suas habilidades. Acabou por descobrir um sótão que até então era inexistente pra ele e decidiu que dormiria por lá.
       
        “Parece mais seguro que os outros cômodos... o que são ratos, baratas e aranha quando se tem um exército de anjos me perseguindo?” – pensou.
       
        Após arrumar tudo – pegar o colchão de hóspedes e colocar no seu “quarto” – e tomar um banho, vestiu algumas roupa de seu ex-colega e desceu até a cozinha para procurar e comer alguma coisa. Felizmente, tudo estava lá e pouca coisa tinha passado do prazo de validade; finalmente estava tranquilo e, aparentemente, fora de perigo. Sentiu uma leve brisa tocar seu rosto e, antes de preparar qualquer comida, deu uma checada se toda janela e porta estavam fechadas. Se deu ao luxo de fazer um macarrão ao sugo e tomar quase uma garrafa inteira de vinho, o que lhe rendeu um belo tombo ao tentar levantar da mesa e, com isso, uma bela ralada no joelho. Ao se apoiar no chão para levantar, teve a impressão que o havia amassado.
       
        - Devo ter bebido um pouco demais, acho melhor eu me deitar e logo pela manhã ver do que o novo Nathan é capaz, o novo, poderoso e sobrenatural Nathan! – Ele estava se sentindo zonzo, claramente por conta da bebida.
       
        Subiu até o sotão com grande dificuldade em acertar os degraus da escada e se jogou no colchão. Antes de fechar os olhos, se levantou e acendeu a luz, que era fraca, mas seria útil poder enxergar caso algo acontecesse na casa. Se deitou outra vez e notou um pequeno baú no canto , bem no canto, embaixo de alguns edredons velhos e bichos de pelúcia. Foi até lá, tirou tudo de cima e o abriu: havia dezenas de fotos do Joe, seu amigo, jutamente com sua famíla, colegas de trabalho e todo tipo de pessoa – amigos, pai, mãe, fotos do colegial... Nathan via tudo aquilo e chorava, não sabia se por tristeza, por saudade, por não saber o que fazer ou por não saber se era capaz de salvar sete bilhões de pessoas de algo que ninguém nem ao menos sabia existir. Tudo que ele estava sentindo era diferente, tendo em vista que nunca havia sentido nada daquilo em toda sua vida e só tinha conhecimento do que era “sentir” havia um dia, pois já era madrugada do dia 18. “Parece que já passei por tanta coisa, já quase morri e só se passou um dia desde que esse inferno começou”, foi um pensamento rápido que veio à sua cabeça. Ainda estava vendo as fotos quando encontrou uma que não lhe agradou nem um pouco. Uma foto de Joe segurando a ex-namorada de Nathan no colo estava em suas mãos e ele começou a se sentir diferente, começou a se sentir... maldoso. Ele se lembra do dia em que aquela foto havia sido tirada, foi em uma virada do ano e sabia que não não houve más intenções da parte de Joe, ele já era casado e sua filha tinha acabado de nascer, mas começou a se sentir de um maneira que nunca tinha visto – ou melhor, não teria nem como ter sentido. Sentia raiva.
       
        Concentrando toda sua raiva no amigo e no modo que ele segurava Jennifer – sua ex – a foto começou a criar chamas em suas laterais e ir em direção ao centro, no rosto de Joe. Quando percebeu o que estava acontecendo, Nathan se assustou e deu um pulo para trás, a foto caiu em cima dos edredons e tudo começou a se incendiar. Os panos, as bonecas e a parede de madeira do sótão. Não haviam grandes chamas e nem nada, mas podia piorar. Nathan correu pegar um galão que estava no outro canto, derramou um pouco do líquido em suas mãos pelo fato de estar bêbado e começou a despejar sobre o incêndio. Para sua infelicidade, era gasolina e o fogo havia percorrido o caminho que ele fizera entre o galão e as chamas, fazendo com que sua mãos também se incendiasse.
       
        - Aaaaah, socorro! Alguém me ajude, alguém! – ele sentia suas mãos queimarem e pedia por ajuda mesmo sabendo que ninguém iria socorrê-lo. – Alguéeeem!
       
        Sentindo um grande medo, de modo que nunca havia sentido antes, as chamas em suas mãos congelaram e caíram no chão como duas grandes luvas. Com as mãos ainda queimadas e ardendo, desceu até a cozinha, encheu uma grande bacia d’água e começou a jogar sobre o fogo que havia se alastrado no sótão, apagando tudo. Nathan se sentou no colchão – que estava ileso no centro do cômodo – e começou a pensar no que havia acontecido. Pegou as chamas congeladas e olhou dentro do gelo: o fogo estava imóvel e não dançava mais. Olhou no vão das pedras, na “entrada” das luvas e lá dentro haviam perfeitos moldes de suas mãos.
       
        Tudo isso era muito louco, muito estranho e, principalmente, muito novo. Nathan não achava que qualquer pessoa do planeta, quando viva, podia fazer aquilo. Apesar das mãos machucadas, seu medo e raiva passaram e ele começou a se sentir feliz, uma felicidade tremenda por ter sentimentos, ter recebido a grandiosa missão de salvar a humanidade e por ter poderes, apesar de ainda não saber como dominá-los e nem ao menos como usá-los. Para sua surpresa, suas mãos queimadas e joelho ralado ficaram envoltos em luzes verdes que irradiavam paz, irradiavam uma sensação de segurança. Quando as luzes se apagaram alguns segundos depois, ele estava curado – mãos e joelho. Já havia passado por muita coisa e não queria ao menos pensar em tudo ocorrera aquela noite, só queria deitar e descansar, o álcool do vinho estava pesando em seu olhos. Se deitou, puxou a coberta e fechou o olhos.
       
        - PUTA QUE PARIU! – Nathan deu um grito recheado de esperança que percorreu todo o bairro.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Capítulo V

     

        - Piores?! Piores como?!
       
        - Eu estava errado, Nathan. Desde sempre o homem se preocupa em descobrir sua origem, mas ele não sabia que essa busca também poderia significar seu fim. Jesus, Maomé... todos existiram e tudo o que está escrito nos livros sagrados são fatos, mas... - ele estendeu um jornal e a expressão do Mal se fechou de um modo que Nathan podia jurar que viu seus olhos lacrimejarem - leia isso.
       
        E ele leu a manchete do último jornal publicado na história da vida humana: "Livro escrito por José, pai de Jesus, é descoberto - cristianismo e todas as religiões do mundo caem", e ainda era possível ler no sub título um trecho retirado do livro: "Meu filho destruirá todos a quem jurou proteger: a humanidade"."
       
        Tudo - ou quase tudo - fazia sentido na cabeça de Nathan agora. Ele já havia parado para pensar que a explicação que o Mal lhe dera no quarto não fazia o menor sentido, "transformar todas as pessoas do mundo em 100% boas". Apesar de nunca ter sido um religioso praticante, sabia que a morte de José teve muita pouca importância na Bíblia, o que é um erro, tendo em vista que ele era pai "adotivo" de Jesus. Nathan deu uma leve passada na matéria e pôde ler algumas coisas que o deixaram sem reação, mas que pareciam verdades absolutas perante a situação do mundo; uma delas era que Judas sabia das intenções do suposto salvador e não foi um traidor, mas sim cúmplice de José na tentativa de salvar o planeta. No trecho dizia: "Judas sabes, também, das intenções dele; e fará de tudo para salvar o homem de seu inimaginável fim."
       
        - Deixe-me ver se entendi: o Bem manifestou Jesus na Terra não com o objetivo de ele ser um profeta e salvador, mas com o objetivo de dominar o mundo ou qualquer coisa assim? - Nathan tentou expressar seu pensamentos.
       
        - Não sei, Nathan... é o que me parece. Não possuo e nem tenho como obter mais informações sobre isso, além do que está escrito no jornal. Pode ser que ele tenha sumido com toda a população terrestre na esperança de começar uma nova vida aqui, com outros seres e de maneira forçada, já que todos descobriram a verdade. O que não se pode negar é que todas as afirmações desse livro são reais e fazem sentido... olhe esse trecho, por exemplo - e apontou exatamente para o de Judas - não foi Judas quem "vendeu" Jesus por 30 moedas? Ora, isso explica muita coisa! Não sabemos o que mais está escrito nesse livro, mas precisamos dele.
       
        - Precisamos nos informar sobre onde ele possa estar...
       
        - Está no Egito. Leia aqui - o Mal interrompeu e apontou para outro lugar na matéria do jornal - " O livro, que está sendo chamado de "Capítulo do Fim" foi encontrando a 17km da grande Pirâmide de Gizé, dentro de um baú simples de madeira e foi levado para análise em Cairo, capital do país."
       
        - Egito?! E como iremos para lá? Não há como, eu estou exausto, preciso descansar e temos que atravessar o oceano para fazer isso!
       
        - Calma, Nathan... chegar lá é o de menos, eu posso providenciar isso. Agora você realmente precisa descansar, volte para a dimensão humana e procure um local seguro, procure algo para comer também e quando se sentir preparado, ligue para o número de celular novamente e lhe darei uma entrada para a dimensão dos sentimentos.
       
        Nathan concordou, se despediu do Mal e saiu da loja de conveniência, com medo da descoberta que havia feito e com as coisas que teria que fazer: viajar, enfrentar sabe-se lá o que; mas também estava ansioso com tudo isso. Olhou em volta, tudo estava escuro, parecia ser entre 10 e 11 da noite - se deu conta de que o tempo passa mais depressa na dimensão dos sentimentos. Teria muito tempo para pensar em tudo o que estava acontecendo, do modo drástico que sua vida havia se transformado e também para testar seus ainda desconhecidos poderes, adquiridos após beber o sangue do Bonum. Não esperava que eles salvassem sua vida, apenas que o deixassem vivo por mais tempo; já considerava um prêmio grandioso ser o último ser vivo naquele momento.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Capítulo IV

     

        Medo foi a única coisa que ele sentiu naquele momento, um GRANDE medo, e esse sentimento era novo pra ele, era uma novidade cuja qual ele não gostaria de ter conhecido pois sabia que sua vida iria acabar antes mesmo que pudesse abrir os olhos. Quando criou coragem para abrí-los alguns milésimos depois, a cadeira da escrivaninha voou sobre um Bonum e o armário velho e rangento encostado na parade caiu sobre o outro, o que os deixou atordoados a ponto de terem que se apoiar nas espadas para não cair. Nesse mesmo instante, a porta do quarto se abriu com um forte baque e pôde-se ler gravada nela como se unhas tivessem riscado a madeira: “CORRA”.
       
        Nathan despertou de seu choque e saiu em disparada, sem olhar pra trás. Podia ouvir os pesados passos dos Bonum o perseguindo escada abaixo com suas armaduras maravilhosas e pesadíssimas, feitas com algum tipo de metal que a Terra ainda não havia conhecido, e ficava horrorizado cada vez que notava que as pancadas das pisadas estavam cada vez mais altas e próximas.
       
        - Não dá pra me deixar sem sentimentos outra vez?! – ele gritava na tentativa de falar com o Mal, ofegante e cansado.
       
        Chegou ao primeiro andar do prédio e continuou descendo até que estivesse na rua e quando chegou lá não sabia o que era pior, se era o silêncio formado pela completa extinção da raça humana ou os dois titãs que ainda o estavam perseguindo. Quando já estava quase no outro quarteirão, tropeçou em uma pedra e caiu no chão e pouco tempo teve para uma reação ao ver que os Bonum já tinham lhe alcançado. Era incrível o tamanho e a força que eles tinham, sua fisionomia, suas curvas, suas formas. Mesmo com um imenso horror correndo dentro do seu corpo, Nathan tinha que admitir que eram as mais belas criaturas que já havia visto e só ele teve essa oportunidade no mundo todo, o que o deixou feliz por um leve instante.
       
        De repente, dois seres idênticos aos Bonum surgiram, mas esses eram escuros como sombras e não possuíam detalhes ou armadura algum: só era possível ver a silhueta das criaturas e das espadas. Notou a surpresa e o espanto no rosto dos originais e não demorou até que se elevassem aos céus e começassem uma batalha que Nathan nunca tinha visto nem nunca esperava ver, todo seu medo se tornou exaltação e era simplesmente fantástico o modo como as espadas se cruzavam no alto e faziam um som de explosão toda vez que se chocavam. O primeiro guerreiro a desabar com um Bonum depois de ser atingido por um golpe de espada nas costas, que o fez perder o movimento das asas. Eles estavam muito alto no céu e a queda que parecia ter uns 30 ou 40 metros havia feito o serviço de lhe tirar a vida. O Bonum que sobrou rapidamente eliminou sua sombra com um golpe na cabeça, que a fez virar uma fumaça escura e desaparecer no ar. A luta entre os dois últimos demorou um pouco, mas a sombra conseguiu acertar o tórax do Bonum, o que fez sua armadura quebrar e seu peito aparecer, mas não o matou; apenas o golpeou no peito de modo que ficava sem forças para continuar lutando e antes ele também pudesse despencar, sua sombra o agarrou com o pés, que eram como de um pássaro e o levou lentamente até o chão, na frente de Nathan e soltou ele; pode tocar sua armadura e percebeu com ela era quente, um quente quase fervente. A sombra fez um sinal para que Nathan tocasse no sangue que escorria no peito ainda pulsante e com uma respiração fraca do Bonum e depois colocasse um pouco desse sangue na boca. Nathan hesitou de começo mas acabou fazendo e não se arrependeu disso: sentiu uma enorme energia dentro de si, percorrendo todas as suas veias e artérias e lhe dando um bem-estar incrível. Pensou que se as outras pessoas ainda estivessem na Terra e soubessem disso, aquele sangue com certeza seria uma droga caríssima. Após esse efeito passar, a sombra do Bonum tirou o resto de vida que o Soldado do Bem ainda tinha, pegou sua espada e a entregou ao último homem da Terra. Nathan deu risada e argumentou que não conseguiria segurá-la nem mesmo com suas duas mãos e seus dois pés, mas a sombra continuava com a espada estendida para ele e, quando resolveu aceitar o presente, percebeu que não era ou não parecia ser mais pesada que um cabo de vassoura ou aqueles pedaços de pau que usava para brigar com os meninos da sua vizinhança quando era adolescente. Maravilhado com o que tinha acabado de ganhar, foi agradecer a sombra e o que viu foi ela se tornando fumaça e se desfazendo no ar também.
       
        - Espere, preciso de explicações! O que aconteceu? Por que eu bebi o sangue dele, por que eu carrego essa espada como um pedaço de papel, quem eram vocês, para aonde eu vou agora?!
       
        Não adiantou, estava sozinho de novo e era, novamente, o último homem da Terra. Pensou em todas as formas possíveis de falar com o Mal e se lembrou daquele número de celular que encontrara na escrivaninha do quarto do seu faxineiro. Procurou o telefone público mais próximo e encontrou um em um posto de gasolina não muito longe de onde estava, colocou algumas moedas e discou para o número que estava no papel apenas para ver a porta da loja de conveniência se abrir. Se dirigiu para dentro dela já sabendo o que iria encontrar e, ao entrar e dar uma rápida olhada no local, se enxergou em uma mesa ao fundo, tomando café e fumando um cigarro com uma expressão séria.
       
        - Quero explicações, o que é que acabou de acontecer?! – exclamou Nathan, com uma mistura de raiva, medo e felicidade por estar seguro percorrendo seu corpo.
       
        - Sente-se, Nathan. As coisas serão piores do que eu imaginava e temos que ter todo o cuidado do mundo. - Mal disse com uma tranquilidade sobrehuma, mas sobrehumano também era o medo e o desespero que Nathan pôde perceber nele.



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Capítulo III

     

        E a verdade caiu como uma pedra na sua cabeça, Nathan ficou meio atordoado e imóvel por alguns segundos. Quando voltou à realidade, pediu um tempo pra pensar, se sentou na cadeira na qual sempre se sentava desde que acordara do seu longo sono e lá pensou; trouxe suas lembranças de vida à tona e percebeu que, de fato, nunca tinha sentido medo, raiva, desprezo ou qualquer sentimento negativo até o dia no qual se tornou o último homem da Terra: nunca brigou com amigos, namoradas ou seus pais, nem ao menos ficava triste com qualquer coisa que acontecesse. Lmbrou de uma vez no trabalho, quando ficou até tarde escrevendo um relatório para seu patrão no escritório e acabou dormindo, só acordando no dia seguinte com seus colegas chegando para trabalhar. Por mais que seu chefe falasse horrores para ele, ele se sentia tranquilo e seu único pensamento era que poderia e iria arrumar outro emprego caso fosse demitido... essa falta de sensações nunca lhe fez mal, afinal, um desejo presente em todas as pessoas era poder enfrentar seu medos, encará-los de frente e não desistir, seja lá do que, por causa deles; mas Nathan não desejava mais isso, queria poder sentir medo, tristeza, raiva e ser uma pessoa normal.
       
        - Eu não quero isso para minha vida, eu não posso fazer isso, eu não sou capaz de fazer isso. Trabalho em um escritório de contabilidade, e não no exército norte- americano! Além do mais, como posso saber que você não está mentindo para mim? Afinal, você é o Mal e desde o começo da vida na Terra o Mal nunca foi visto com bons olhos. – indagou Nathan.
       
        - Se fosse mentira, eu com certeza não estaria conversando com você... olhe quem eu sou e tudo o que posso fazer com você agora, Nathan. Qual a lógica em eu estar mentindo?
       
        No fundo, Nathan sabia que o Mal tinha razão. Não fazia nenhum sentido ele estar vivo se não esse que estava ouvindo, ele só não queria aceitar esse cargo de salvador da humanidade porque sabia que não era isso e estava longe de ser, pensava que nem mesmo Jesus havia conseguido salvar toda a humanidade.
       
        - Se só existe Bem e Mal, como você explica Jesus e todos esses profetas que fizeram bem ao planeta? Como você explica as pessoas que fazem atrocidades com as outras e todo tipo de crime, além das várias seitas satânicas e esses tipos de grupo? – questionou o sobrevivente mais uma vez.
       
        - Jesus e todos os outros profetas realmente existiram, eles foram manifestações do Bem na Terra. O Bem sempre fez questão de provar sua existência e isso foi um combinado entre nós dois, se o homem não tivesse algo para acreditar além do que seus olhos pudessem ver, o planeta seria um lugar sem lei aonde crimes ocorreriam sem punição ou arrependimento algum... os seres humanos necessitavam acreditar em algo, algo que lhes desse esperança e vontade para continuar vivendo e continuar praticando o bem. Quanto às pessoas que praticam o mal, eu já disse, não posso negar meu poder a elas... se você deseja frieza e raiva o suficiente para matar alguém, eu tenho que conceber isso com a maior naturalidade do mundo e não há nada que eu possa fazer para evitar o pior – essa última declaração, percebeu Nathan, Mal havia feito com um pouco de culpa.
       
        - Preciso pensar, preciso de tempo... não sei se estou pronto para encarar tudo isso, é muita responsabilidade para um homem ter que encarar a maior força que o ser humano já viu...
       
        - Uma das maiores, Nathan. O Bem não é e nunca foi mais forte do que eu, apenas tinhamos um acordo no qual dizia que ele podia se sobressair em relação à mim, mas ele acabou se achando infinitamente mais importante e fez o que fez, ele planeja tornar todas as pessoas 100% boas para que exista um “mundo perfeito” e fez isso levando todas elas embora, e todos nós sabemos que o mal é essencial na vida do ser humano, faz parte de sua natureza. Você consegue se imaginar perdendo um pai ou uma mãe e dando risada disso, sem sentir aquela tristeza, aquele medo de ficar sozinho, ou perder o braço em algum acidente de carro e não sentir dor? Pode ter certeza que eu sempre estarei ao seu lado, você nunca estará sozinho em momento algum... sou onipresente, lembra? Mesmo estando em outra dimensão, sempre estarei com você e te ajudarei no que puder.
       
        Antes que pudesse fazer mais perguntas que ele julgava importantes, ouviu-se batidas na portas e vozes estranhas, mais parecidas com barulhos de abelha mas muito, muito alto.
       
        - Vá, Nathan! Se eles entrarem nessa dimensão nós com certeza estaremos perdidos, eles não podem saber que estou te ajudando, o Bem não pode saber que você ainda está vivo! Saia da dimensão dos sentimentos e volte para a dimensão humana, vá, corra para a porta e saia desse quarto! – Mal parecia estar com mais medo do que nunca, e isso era estranho levando em conta que ele estava criava essa sensação.
       
        - Mas eu ainda não sei por que o Bem fez isso, não sei aonde estão todas as pessoas e muito menos quem não pode nos achar aqui!
       
        - São os Bonum, os soldados do Bem, e eles estão te procurando! Vá, agora!
       
        Nesse momento, a porta se abriu e ele foi empurrado para fora do quarto como que por meio de telecinese e voltou ao mesmo quarto que estava antes, em frente à janela, idêntico ao quarto no qual estava há 10 segundos atrás. As batidas na porta haviam cessado e ele sentiu um alívio imenso ao perceber que aqueles passos na escada eram apenas o Mal subindo para que eles pudessem conversar, então ele o levou para a dimensão dos sentimentos para que pudessem conversar em segurança. Ele se virou para a porta para sair do quarto. Em pé estavam dois seres com quase dois metros de altura, asas com mais ou menos esse mesmo comprimento, armadura branca adornada com ouro e espadas que deviam pesar mais de 10 quilos.
       
        Eles ergueram as espadas e Nathan fechou os olhos.





segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Capítulo II

       

        O silêncio entrou no quarto junto com uma rajada de medo e se pode ver ao fundo do corredor o que parecia outra porta. "Ela não estava alí", capturou esse pensamento, entre os vários que circulavam sua cabeça. Andou em direção a ela, cada passo parecendo o último da sua vida, o último da humanidade e, ao abrí-la, estava de volta ao quarto, mas com algo na sua frente que era de arrepiar até os micro-pêlos da palma da sua mão: estava frente a frente com ele mesmo. Não havia espelho, não havia vidro, não havia uma superfícia lisa de metal na qual ele pudesse estar vendo seu reflexo, não, era uma imagem de carne e osso, pelo menos achava ele, do seu próprio corpo. A imagem dava risada ao ver o último homem da Terra com seu rosto espantado.
     
        - Calma, Nathan! – ele disse ainda rindo - você está vendo exatamente o que está vendo, mas não há com o quê se preocupar.
     
        Sim, ele se chamava Nathan. Não era e não será necessário saber o nome do nosso bravo sobrevivente, mas chamaremos ele pelo nome porque é mil vezes mais fácil contar a história desse jeito.
     
        - Calma?! Eu estou me vendo, eu estou conversando comigo mesmo, eu, eu... eu estou ficando louco! – Ele pegou o lençol recém rasgado pela sua tentativa de enforcamento e começou a tentar arrumá-lo, mas desistiu em seguida.
     
        - Você não está louco, você não está falando com você... eu sou o Mal, e essa é a única forma que eu posso me comunicar com você, uma vez que não existo fisicamente e você é o último corpo ainda existente no qual posso me espelhar. A única coisa que posso fazer na forma não-física é mexer e criar objetos, e isso inclui rasgar lençóis... e tomar o corpo de outras pessoas também, mas isso não tem nada a ver com toda a baboseira que os filmes de exorcismo nos mostra.
     
        O horror no rosto do verdadeiro Nathan era facilmente notável, ele não conseguia esconder seu medo e pavor. Antes que pudesse vir a sua mente a ideia de responder ou questionar tudo o que seu clone disse, ele só teve coragem de perguntar, ainda em uma vóz trêmula:
     
        - Você é o... Mal? Que tipo de Mal é você, você é o Diabo? – percebendo a superioridade em tudo que seu clone possuía, procurou escolher as melhores palavras possíveis para não ofendê-lo.
     
        - Não, eu não sou o Diabo, eu não sou o demônio e não sou algo que vá te machucar fisicamente, não tenho nem motivos pra fazer isso. Eu sou aquilo que faz as pessoas sentirem medo, que faz elas sentirem tristeza, raiva e todos os tipos de sentimento negativo que os seres humanos têm conhecimento; isso nunca foi obra do seu cérebro e nunca vai ser... do mesmo modo que o Bem faz todas as pessoas do mundo sentirem amor, felicidade, prazer, realização, alegria. Não existe Deus e Diabo, isso é apenas uma ideologia que uma das várias fragmentações, conhecidas por vocês como religiões, criou pra nos designar.
     
        Tudo isso era demais para Nathan. Ele estava frente a frente com o Diabo, ou o Mal, ou seja lá quem fosse ele. Sempre foi uma pessoa religiosa e agora a própria coisa pela qual ele sempre rezou e lutou contra estava dizendo que não queria machucá-lo e que tudo que sempre ouviu nas missas e acreditou era apenas uma fragmentação de algo muito maior. Não só o que ele acreditou, todos os cristãos do mundo. A única coisa que pôde pensar era em como queria não ser o último homem da Terra e poder voltar a trabalhar na parte de contabilidade de sua empresa.
     
        - Preciso de um segundo pra por tudo no lugar, tem muita coisa na minha cabeça e eu...
     
        - Não há tempo, Nathan. Nos encontraremos novamente no futuro, mas até lá preciso que você entenda uma coisa muito difícil de ser acreditada e até mesmo entendida: o Bem é um ser como eu, onipresente, criado junto com a criação do Universo para tomar conta deste planeta e dos sentimentos de seus habitantes, e desde essa época remota existe alguém criado para não sentir bons sentimentos e alguém criado para não sentir maus sentimentos, o que é passado de geração em geração pela família dos Escolhidos, mas o Bem planeja algo muito, muito horrível. Não há tempo para explicações e já gostaria de me desculpar por não tirar todo esse sentimento terrível de dentro de você, Nathan... de solidão, de tristeza, de medo. Eu não infiltro isso nas pessoas por gosto, mas por obrigação, é algo automático.
     
        - Mas nunca senti tanto medo assim, eu não estou só com medo, estou aterrorizado! – ele exclamou, já gritando após perceber que o Mal não lhe faria mal – eu sempre fui alguém muito forte em relação aos sentimentos ruins, sempre segurei a barra, nunca me senti como me sinto hoje, não sei dizer... sozinho.
     
        - Você sente medo agora porque, como não há mais ninguém para eu ter que dividir meu poder, todo ele é focado em você e apesar disso ser um perigo, não havia outra saída.
     
        Nathan se perguntava sobre o que o Mal havia acabado de dizer, pois não havia entendido nada, e perguntou algo que não parecia óbvio:
     
        - E por que não me possuiu para me salvar e ser a última esperança da Terra?
     
        E a resposta o deixou mais assustado, mais assustado do que já estivera um dia, mais assustado do que parecia ser possível.
     
        - Você é a maior arma que o Bem pode usar contra mim, você é o único que pode salvar a Terra ou destruí-la. Eu não podia te possuir, eu não conseguia te possuir e nunca consegui fazer você sentir coisas ruins até hoje, uma vez que minha energia era dividida em sete bilhões de pessoas. Você é o Escolhido do Bem por herança e não havia modos de ao menos chegar perto de você do jeito que estou fazendo agora.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Capítulo I

        Então o último homem da Terra se sentou sozinho em um quarto, e ouviu-se uma batida na porta. Não era possível que ele não fosse mesmo o último homem da Terra e um animal não seria capaz de fazer um barulho de batida como aquele. Ele a abriu. Vazio. E ele parou para pensar que o silêncio absoluto no mundo era horrivelmente pior quando comparado à possibilidade de existir outro ser inteligente ainda vivo no planeta, mesmo que  esse ser não fosse um ser humano e ainda fosse hostil e estivesse pronto para aniquiliar o último homem da Terra e, assim, a vida humana na Terra. E como ele queria que tivesse sido assim, que houvesse alguém para matá-lo e acabar com seu sofrimento solitário de ser a última pessoa em uma vastidão de países e continentes, mas não. Era uma silêncio ensurdecedor, como se todas as almas das bilhões de pessoas que haviam deixado essa vida gritassem silenciosamente em suas orelhas e isso o estava deixando louco. Teve que dar uma volta.
       
        As ruas eram bem piores. Carros abandonados por todos os lados em uma perfeição absurda, como se fosse um dia normal de três meses atrás; suas portas estavam fechadas e os carros parados em perfeito movimento, um atrás do outro, como se estivessem em um congestionamento, e o mais impressionante porém mais perturbador: não havia corpos, não havia barulho e nem mesmo aquela sensação de que alguém está observando. O semáforo estava mudando suas cores como fazia todo dia, todos os outdoors dos monstruosos arranha-céus ainda passavam a propaganda da Coca-Cola, até mesmo os celulares que ficam a mostra nas lojas da Apple estavam ligados e apresentavam sinais de operadora. O último homem da Terra tentou ligar para sua família e para amigos usando um dos Iphone 5s recém lançados que encontrou na vitrine de uma dessas lojas e... nada. O toque de chamar acontecia quatro vezes e em seguida se silenciava, embora o telefone continuasse fazendo a ligação, como se alguém atendesse e nada falasse.
       
        O último homem da Terra olhou no calendário do celular e constatou o que não poderia ser verdade:  17 de julho. Havia dormido por 13 dias e a última coisa da qual se lembra era do estranho e misterioso faxineiro do escritório aonde trabalhava o ter sequestrado, o levado para seu pequeno e pobre apartamento e o forçado a tomar algo estranho, tinha gosto de chá-mate mas era gaseificado, muito mais do que as águas com gás normalmente encontradas em mercados e lojas de conveniência e, no meio do seu sono que pareceu ter durado alguns minutos apenas, ele se sentia incrivemente sozinho, sentia como se nem mesmo no seu sonho as pessoas existissem mais. Mas não podia ter verdade, afinal, todo já sonharam com algo assustador e pouco depois acordaram para o próprio alívio... ou podia? Estaria tudo isso realmente acontecendo? Acessou os sites de notícia usando  3G do celular, uma vez que as operadoras ainda “trabalhavam” e as notícias também tinha parado no dia 5 de julho, dia seguinte ao começo do seu “coma”, e não havia notícias sobre o fim da humanidade, o desaparecimento de todos os corpos da superfície do planeta Terra ou nada que pudesse lhe dar alguma dica do que estava acontecendo. O último homem da Terra ainda estaria sonhando? Seu cérebro estaria lhe pregando alguma peça quando ouviu o bater na porta? Estaria ele ficando louco com a falta de barulho que não estava acostumado?
       
        Então o último homem da Terra voltou e se sentou sozinho no quarto. Olhando fixamente e sem foco a escrivaninha do lugar, notou um papel com um número de celular anotado. Pegou o Iphone que ainda estava no seu bolso e ligou. Depois das mesmas quatro chamadas, o mesmo silêncio tomou lugar dos toques mas, quando ia desligar, ouviu uma batida em uma porta pelo telefone, imediatamente entrou em desespero. Desligou o celular e ouviu passos de alguém subindo a escada, em passos uníssonos e idênticos, passos que pareciam gravados por qualquer tipo de gravador e depois terem sidos colocados para tocar em algum rádio, mas ele sabia que não era isso, os passos estavam cada vez mais perto. Pegou o lençol da cama em que acordara e rapidamente consultou pela 3G do celular como fazer uma “corda” com o lençol para se enforcar, e conforme o tempo ia passando, os passos iam passando tambem e chegando mais perto. Quanto mais passos, mais perto. Subiu na cadeira em que se sentara quando acordou, ficou de pé nela e colocou a cabeça no laço que havia com o lençol e o último homem da Terra empurrou a cadeira com o pés. Ouviu-se uma batida na porta. A batida ia se agravando, ia ficando mais forte, mais agressiva e o último homem da Terra estava com mais medo dela do que de morrer. Sua visão foi escurecendo, o mundo foi perdendo a cor e sua consciência estava deixando seu corpo, seus sentidos não sentiam mais nada, finalmente estava deixando de ser o último homem na Terra para se tornar um dos vários bilhões de homens que habitavam, agora, seja lá onde fosse. De repente, ouviu-se um rasgo e uma batida seca no chão. Suas costas doíam, ele estava fraco demais para se mexer mas seus sentidos já haviam retornado.
       
        Ouviu-se o abrir da porta.